A Guerra do Cangaço

Por Leandro Cardoso Fernandes*

O Cangaço, fenômeno social que se estendeu além das fronteiras nordestinas, encontrou seu apogeu nos anos 20, com seu maior expoente: Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.

Na sua essência, reflete a reação do sertanejo ao processo de colonização pelo europeu, uma vez que o clavinote genocida e o peso da bota do português despertaram os “irredentos”, no dizer do pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, que munidos do rancor e da vontade de continuar vivendo “sem lei nem rei”, pegaram em armas e foram viver “debaixo do cangaço”.

O cangaço sempre viveu de forma endêmica no sertão brasileiro. De quando em vez, explodia em surtos epidêmicos, que rapidamente suscitava retaliações violentas por parte dos poderes constituídos, principalmente na segunda e terceira décadas do século XX. Nestes surtos epidêmicos podemos inserir as guerrilhas indígenas contra os bandeirantes; os quilombolas contra capitães do mato e bandeirantes; as lutas pela independência do Brasil (brasileiros x portugueses); e, finalmente, o Cangaço, com suas variadas roupagens, Brasil afora. A própria formação cultural do sertanejo e seu código de honra permitiam a prática de revides contra agressões sofridas, o que era moralmente aceitável no meio em que viviam, mas reprovável aos olhos da dita civilização litorânea.

Empurrado pela repressão, o cangaço encontra na caatinga o ambiente ideal para prosperar. A vegetação seca e espinhenta minava o vigor dos perseguidores, e foi importante aliado dos vários bandos de cangaceiros. As regiões de caatinga braba da Floresta do Navio, em Pernambuco e o famoso Raso da Catarina, no sertão baiano eram refúgio certo para Lampião, quando necessitava esquivar-se dos perseguidores e também impor as agruras do terreno às Forças Volantes.

O modus operandi de cangaceiros e volantes era basicamente o mesmo: a imposição do terror. A tática de guerrilha era largamente usada pelos contendentes, sendo que os cangaceiros abusavam do recuo e, na maioria das vezes, escolhiam o terreno das refregas. Muitas vezes, as vítimas (de cangaceiros e volantes) eram os pequenos proprietários de terras que, sem ter a proteção dos latifundiários, se viam entre “a cruz e a espada”, ou seja, forçados a “acoitar” Lampião e, como consequência, sofrer retaliações pelas mãos furiosas das tropas volantes.

A indumentária do cangaceiro encontra poucos rivais em beleza e acabamento. A riqueza do traje é evidente, o que joga por terra a tese de alguns autores que afirmavam que os cangaceiros se vestiam de maneira a se camuflar ou ocultar na caatinga. Ora, basta olhar para os enormes chapéus de couro, enfeitados com signos de Salomão, palmas e estrelas, com os barbicachos cheios de moedas de ouro; os bornais, cruzados ao peito, com estrelas estilizadas coloridas; a jabiraca (lenço de seda) em cores berrantes ao redor do pescoço; além do cheiro de suor misturado ao perfume, para disfarçar os vários dias sem banho. Tudo isso no leva a concluir que ao vestir-se desta forma, o cangaceiro intencionava impor superioridade aos interlocutores. Inclusive, este é um dos argumentos levantados contra o rótulo gratuito de bandido comum, pois este tenderia a ocultar-se, enquanto que o cangaceiro, protegido por seu escudo ético, quer mostrar-se com toda a sobranceria.

Tanto cangaceiro como volantes nos deram exemplos de grandes guerreiros. Dentre os capitães de cangaço, destacamos Jesuíno Brilhante, Antonio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião, Corisco, Luís Pedro, Moreno, Zé Baiano, Zé Sereno. Entre os citados, é indiscutível a superioridade de Lampião, cuja astúcia ludibriou as volantes de 7 estados nordestinos, durante mais de 20 anos. É um dos raros brasileiros a ter duas biografias publicadas em vida: a primeira em 1926, por Érico de Almeida e a segunda por Ranulpho Prata, em 1933. E hoje é uma das personagens mais biografadas da nossa História.

Do lado das volantes, temos o exemplo de coragem de grandes oficiais, dentre os quais se destacam Teóphanes Ferraz Torres, Manoel Neto, Zé Rufino, João Bezerra, Odilon Flor, Euclides Flor, Arlindo Rocha, Higino Belarmino (Nego Higino), Cabo Besouro, dentre outros. É importante destacar a participação do Coronel Teóphanes Ferraz Torres, que prendeu, em 1914, o cangaceiro Antonio Silvino, e foi responsável pela expulsão de Lampião do Estado de Pernambuco para a Bahia, em 1928.

As batalhas do cangaço foram impressionantes. Episódios heroicos como o Combate da Serra da Forquilha, em 1922, onde Sinhô Pereira (com Lampião no bando) e mais 10 cangaceiros conseguiram furar o cerco feito por 120 soldados, sem mortos ou feridos; ou mesmo o combate da Serra Grande, em 1926, onde Lampião e 70 cangaceiros, entrincheirados no alto da serra, enfrentaram 300 soldados da união de 3 volantes. Deste renhido combate saíram 10 soldados mortos e 14 feridos. Nenhum morto ou ferido por parte dos cangaceiros.

Abro aqui um parêntesis para falar do Nazarenos. A pequena Vila de Nazaré, hoje Carqueja, próxima a Serra Talhada, forneceu os mais ferozes perseguidores de Lampião.  Dentre eles, o Tenente Manoel de Souza Neto, que protagonizou vários episódios de bravura contra Lampião e outros chefes de grupo. Tal era sua tenacidade no encalço do Rei do Cangaço, que este lhe deu um apelido: Mané Fumaça; e Maria Bonita, por sua vez, o apelidou de Cachorro Azedo. Manoel Neto saiu, em mais de uma ocasião, baleado, à frente da tropa para perseguir e atacar Lampião.

Outro comandante de volante que merece ser citado é José Osório de Faria, o Zé de Rufina (ou Zé Rufino), pernambucano que soma para si as mortes de mais de uma dezena de cangaceiros, dentre eles os famosos Mariano e Corisco, o Diabo Louro, em 1940.

Entretanto, o combate mais famoso da epopeia do Cangaço foi o Combate de Angico, em julho de 1938, onde o Tenente João Bezerra e o Aspirante Francisco Ferreira de Melo deram cabo de Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros, que foram pegos de surpresa naquela madrugada, que seria eternizada com o tiro de misericórdia do Cangaço, que ainda estrebucharia até maio de 1940, com a morte de Corisco, o vingador de Lampião.

* Leandro Cardoso Fernandes é médico, escritor e consultor da Sertão Games para o Cangaço Wargame. Apaixonado pelo tema desde os 12 anos de idade, coleciona peças e fotos originais. Também realizou várias entrevistas e conversas informais com cangaceiros.

Referências

Mello, Frederico P. Guerreiros do Sol. São Paulo: A Girafa. 2.ed., 2004.

FERNANDES, L. C. “Caatinga, Cangaço e o Raso da Catarina”. In Almeida-Cortez et al. “Caatinga”. Ed. Harbra. São Paulo, 2007.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s