Como são feitos os mapas do Cangaço RPG

por Ulisses Santana (level designer)

Galera, os jogadores do Cangaço RPG vão poder criar suas próprias aventuras e compartilhá-las com os amigos, então iremos resumir um pouco do processo de produção dos mapas de batalha.

Os mapas são organizados em células, que podem ser vistas como uma grade (grid) na imagem abaixo. Usamos o popular programa livre Tiled como editor de mapas para o Cangaço RPG. Na barra lateral do editor, pode-se ver um conjunto de blocos, chamados tiles, que são produzidos pelo time de artistas e representam os elementos de cenário que podem ser usados nos mapas do jogo.

Editor de mapas Tiled, usado para criação dos mapas do Cangaço RPG

Editor de mapas Tiled, usado para criação dos mapas do Cangaço RPG

Cada tile tem um modelo 3D detalhado equivalente na engine do jogo. Você monta o cenário “pintando” os elementos que quer colocar em cada célula. O arquivo gerado pelo editor guarda essas referencias, que são usadas para identificar os modelos 3D correspondentes a cada tile. Por exemplo, onde existir um tile de arvore no mapa criado no Tiled, será posicionado no cenário real do jogo um modelo 3D de uma arvore, como mostrado abaixo:

Montagem de cenários no Tiled

Montagem de cenários no Tiled

Modelos 3D correspondentes na engine do jogo

Modelos 3D correspondentes na engine do jogo

Para uma arvore ficar sobre a grama, por exemplo, é preciso usar-se mais de uma camada de tiles. No nosso caso, usamos sempre duas: a do solo e a de plantas e obstáculos.

Exemplo de camada de tiles usada para posicionar apenas elementos de solo, como areia, grama e água

Exemplo de camada de tiles usada para posicionar apenas elementos de solo, como areia, grama e água

Além dessas camadas de tiles, também usamos as camadas de objetos, que servem para se posicionar spawn points para personagens do jogador, inimigos, npcs, itens para loot, etc. No caso da imagem abaixo, as células contornadas de vermelho representam o time inimigo e as células verdes os personagens do jogador.

Um mapa com todas as camadas ativadas

Um mapa com todas as camadas ativadas

Ao se definir a posição desejada para cada tile ou objeto, você também deve definir algumas propriedades, por exemplo escolher qual o tipo de unidade (personagem) que deverá surgir naquele local. Para os tiles, é necessário especificar se o mesmo permite movimentação (para o path finder) e elevação (para cálculo de visada/line of sight).

Definindo as propriedades do spawn point de um personagem da volante

Definindo as propriedades do spawn point de um personagem da volante

Bom pessoal, essas são as principais etapas para se criar um mapa de batalha no Cangaço RPG. Não mostramos aqui como pode-se definir diálogos, objetivos, e outros detalhes, que ficarão para um próximo post (e também para o manual de criação de mapas e campanhas). Com o mapa terminado, basta usar a interface existente no jogo para importar o arquivo gerado e se divertir nas novas batalhas.

O mapa após ser carregado no Cangaço RPG

O mapa após ser carregado no Cangaço RPG

Sertão Games é premiada Empreendedora da Web pelo Interaje

premio-interaje (6)Com ideias inovadoras para a área de tecnologia, a Sertão Games, recebeu ontem (19) o título de Empreendedor Web do Ano. O troféu faz parte de uma ação de incentivo ao desenvolvimento da área no Piauí, o Interaje, que está no seu terceiro ano e premiou mais oito categorias, entre blogs, twitters, fotografias e vídeos. Criada a pouco mais de um ano, a piauiense Sertão Games vem colecionando prêmios pela criatividade na criação dos jogos. O Cangaço Wargame, por exemplo, já atingiu mais de 10 mil fãs, que encontram no jogo aspectos nordestinos, uma novidade no mercado.


“Somos a primeira e única no Piauí a criar jogos baseados na nossa realidade. É impressionante a rapidez como se expande a inovação, que ganhou jogadores no mundo inteiro. Além do Cangaço, um dos nossos maiores sucessos, fomos reconhecidos pela criatividade, entretenimento e cultura presentes nas criações”, comenta Pedro Alexandre, um dos idealizadores da Sertão Games.  Desbancando quatro fortes concorrentes na categoria de Empreendedor Web, o Sertão Games aproveitou para apresentar o novo jogo, lançado no dia da premiação.  O Fields of Gore, um jogo online que funciona diretamente no navegador web, sem a necessidade de downloads ou instalação de plugins. Um presente para os amantes das batalhas de heróis.

“A indicação é do público e a votação também”, destaca Joselé Martins, organizador do Interaje 2012. Para Erick Passos, da Sertão Games, o reconhecimento no próprio Estado é importante também para incentivar o desenvolvimento de projetos de tecnologia. “Prova de que a inovação a partir da nossa realidade pode ser um sucesso, o Cangaço venceu o concurso do site Uol Jogos e ganhamos o Prêmio de Competitividade para Micro e Pequenas Empresas, MPE Brasil, além disso, já somos finalistas do Prêmio Nacional de Inovação, onde receberemos o reconhecimento diretamente das mãos da Presidente Dilma”, revela Erick.

 

O ÚLTIMO COMBATE DE LAMPIÃO

Por Leandro Cardoso Fernandes*

Na madrugada do dia 28 de julho de 1938, na margem sergipana do Rio São Francisco, em Angico, irrompeu o tiroteio em que morreram Lampião, Maria Bonita, Enedina, Luiz Pedro, Mergulhão, outros 6 cangaceiros e o soldado Adrião Pedro de Souza.

O ataque foi fruto da ação conjunta entre as volantes do Tenente João Bezerra da Silva, do Aspirante Francisco Ferreira de Melo e do sargento Aniceto Rodrigues, todos da polícia alagoana. Apesar dos contratempos, Bezerra e Ferreira de Melo conseguiram superar a inteligência bélica de Lampião, impondo ao experiente cangaceiro o fator surpresa, com grande êxito.

Neste pequeno artigo, tentaremos reconstituir, de maneira sucinta, o desenrolar da trama que culminou com a morte do Rei e da Rainha do Cangaço.

Desde meados de 1936, após a invasão de Piranhas (AL) por Gato, Moreno e Corisco, que a perseguição aos cangaceiros acirrou-se sobremaneira. Lampião vinha driblando as volantes na região limítrofe entre Alagoas, Sergipe e Bahia, sempre margeando o Rio São Francisco e as caatingas destes três estados, onde estabelecera grande e sólida rede de coiteiros.

Antes do combate do Angico, o último grande confronto de Lampião com forças volantes foi o combate da Lagoa do Domingos João, arredores de Canindé do São Francisco (SE), em meados de 1937, onde fora surpreendido pela volante de Zé Rufino. Desde então, Lampião estava retraído, escondendo-se ora na margem sergipana, ora na margem alagoana do Velho Chico.

Zé Rufino
Fonte: Acervo pessoal Leandro Cardoso

Neste período, Maria Bonita começou a “escarrar” sangue. Especula-se que tenha sido sequela do tiro que levara na Serrinha do Catimbau (Garanhuns, Pernambuco) dois anos antes ou, quem sabe, tuberculose. Lampião, com a ajuda e proteção do todo-poderoso Coronel sergipano Hercílio Brito, enviara Maria, incógnita, para Propriá, cidade próspera do interior sergipano, para ser tratada adequadamente por médico, o que foi feito a contento.

No período de ausência de Maria, Lampião ficou gravitando entre os municípios de Canindé do São Francisco, Poço Redondo (SE) e Piranhas. Numa das vezes que visitou a fazenda Pedra D’Água, município de Canindé do São Francisco, de propriedade de Dona Delfina Fernandes. Lampião prometeu, nesta ocasião, que em fins de julho, após o retorno de Maria, retornaria à fazenda para apadrinhar uma criança da fazenda, conforme havia lhe pedido a proprietária.

Quando da travessia do São Francisco, de Alagoas para Sergipe, dias antes do combate do Angico, teria dito ao grupo que estava cansado da perseguição que lhe moviam as volantes da Bahia, Pernambuco (os Nazarenos), Alagoas e Sergipe; que talvez fizesse uma grande viagem para Minas Gerais, e que quem quisesse acompanha-lo estava livre para fazê-lo (palavras do ex-cangaceiro Candeeiro). Disse também que chamara, para uma reunião, os subgrupos de Corisco, Ângelo Roque (o Labareda) e Zé Sereno.

Corisco recebera um bilhete de Lampião, cujo conteúdo (relatado por Dadá) convocava-o para dar uma lição em Zé Rufino, que “queria passar de pato a ganso”. No entanto, o real motivo da reunião, até hoje é motivo de especulação. Corisco ainda chegou até o Angico, dois dias antes do combate, mas disse a Lampião que não gostava daquele lugar que parecia “cova de defunto: com uma entrada e uma saída”. Após conversar com Lampião, atravessou novamente o São Francisco, ficando na margem alagoana, esperando o grupo de Ângelo Roque, que ainda não havia chegado, para novamente se encontrarem.

O coiteiro de Lampião no Angico era Pedro de Cândido, que morava em Entre-Montes, localidade próxima a Piranhas, na margem alagoana do rio. Um vizinho, Joca Bernardes, desconfiou de Pedro, pois este havia comprado muitos queijos, além de ter trazido coisas da feira de Piranhas. Joca, que tinha, talvez, inveja do vizinho (provavelmente pela proximidade deste com Lampião) foi até a delegacia de Piranhas e avisou ao Sargento Aniceto Rodrigues: – Aperte Pedro, que ele tem Lampião!

Aniceto, então, telegrafou para João Bezerra, que estava na cidade de Pedra de Delmiro (AL), com sua volante e com Ferreira de Melo, enviando a seguinte mensagem: “Venha imediatamente. Boi no pasto!”.

Bezerra, que entendeu a mensagem codificada, tomou duas metralhadoras emprestadas da volante do nazareno Odilon Flor, sem nada informa-lo, e apressou-se para retornar a Piranhas.

Na tarde do dia 27, as três volantes (Bezerra, Ferreira de Melo e Aniceto) partiram com a informação dada por Joca Bernardo de que Pedro de Cândido tinha o paradeiro de Lampião. Bezerra, então, manda dois soldados buscarem Pedro em casa.

Pedro é trazido e questionado por Bezerra e Ferreira de Melo. Nega saber do paradeiro de Lampião. O Tenente, então, subjuga-o e arranca uma das unhas de Pedro com a ponta do punhal e “força” sua costela “mindinha” com o cabo do mesmo punhal. Pedro, então, confessa tudo: Lampião está ali perto e ele os levará até ele. Pede, entretanto, para irem buscar seu irmão, Durval Rodrigues Rosa, pois ele sozinho teria dificuldade de guiar as três volantes. Durval, pego de surpresa, é, então, incorporado à tropa.

Procuram o canoeiro Pedro Bengo, que ajouja duas canoas, e, assim, consegue transportar todos os homens para a margem sergipana do rio.

Os soldados seguiram silentes, tomando cachaça com pólvora para vencer o frio e o medo de, naquela madrugada, enfrentarem o Rei do Cangaço.

Voltemos aos cangaceiros.

Após sua recuperação, Maria retorna ao seio do bando, dias antes do combate do Angico. Chega, porém, com uma novidade: cortara o cabelo ‘a la garçon’, então na moda, o que despertou a fúria de Lampião, que não aprovou a “modernidade”. Segundo testemunhas (depoimentos de Dulce e Cila), tiveram um briga feia na véspera do combate.

Na noite daquele 27 de julho de 1938, Maria, Cila e Dulce sentaram-se no alto de uma pedra para fumarem. Maria botou para fora a raiva que estava de Lampião e as três conversaram bastante, inclusive sobre o que aconteceria se fossem presas. Maria dizendo que se fosse presa por uma volante baiana não teria muitos problemas, pois tinha primos que sentaram praça. Cila, por sua vez, disse que preferia as volantes de Sergipe. Em determinado momento, Cila chama a atenção das amigas para uma luz que acendia e apagava ao longe. “- Não será luz de pilha (lanterna)”, perguntou?. Maria, que era a mais experiente, não deu bola e disse que era vagalume. Ledo engano. Era a tropa que avançava.

Enfim, jogaram conversa fora e depois voltaram para dormir. Segundo Balão, todos se recolheram por volta das 22h. Enquanto isso os soldados se aproximavam silenciosamente, tentando fechar o cerco.

Acordaram por volta das quatro e meia/cinco horas da manhã. Lampião convidou para rezarem o Ofício de Nossa Senhora. Os que quiseram, levantaram-se e rezaram. Outros continuaram sob as cobertas, por causa do frio (caso de Candeeiro). Já outros, rezaram e voltaram a deitar-se (caso de Cila). Lampião, Zé Sereno e Luís Pedro já estavam de pé e tomaram um cafezinho feito pelo cangaceiro Vila Nova (o único que estava devidamente equipado naquela hora). Zé Sereno ponderava com Lampião que já haviam se demorado muito ali e que deveriam sair, sob pena de serem emboscados. Lampião disse que sairiam após o café.

Então, Lampião ordenou que Amoroso fosse até um dos caldeirões de água (pequena poça d’água acumulada a uns 70-80 metros de onde estavam). Amoroso, ao chegar no referido caldeirão, se preparou para urinar, e iria fazê-lo em cima dos soldados, que estavam escondidos ali próximos. Estes haviam recebido ordens de João Bezerra para não atirar antes dele, até que o cerco estivesse fechado. Os soldados, porém, não tiveram escolha, pois o cangaceiro estava muito próximo, quase “topando” neles.

Atiraram, então. Mas, por medo ou embriaguez, erraram e Amoroso volta correndo. Nesse ínterim, Maria Bonita vinha na mesma direção, com uma bacia de queijo do reino, para pegar também água. Os soldados, então, não perdem tempo e atiram na cangaceira, que grita: “- Valhei-me, Nossa Senhora!”. Maria foi, então, alvejada na barriga e, quando virou-se para correr, recebeu um balaço nas costas, caindo, logo adiante.

O tiroteio, neste meio tempo, já irrompeu para os lados onde Lampião estava. Zé Sereno, quando ouviu os tiros sobre Amoroso, disse a Lampião: “Não falei que a gente brigava hoje?”.

Logo aos primeiros tiros, o fuzil de Lampião foi atingido no engenho, o que limitou a reação do Rei do Cangaço (palavras de Candeeiro), e o fez ser atingido no tórax e no baixo ventre, caindo ao solo.

Zé Sereno conseguiu escapar ao furar o cerco parcialmente fechado (Aniceto perdera-se e não havia conseguido chegar neste momento) fingindo-se passar por um volante: “- Não atire, que é companheiro!”. Conseguiu, portanto, fugir.

Candeeiro correu, mas topou com os soldados de Aniceto Rodrigues no meio da mata, e foi atingido no braço, perdendo a capacidade de revidar os tiros. Mesmo assim, conseguiu fugir, ajudado por Amoroso e outros cangaceiros.

Cila, que praticamente foi arrastada pelos companheiros, estava em estado de choque. Correu pela caatinga descalça, pois não teve tempo de calçar as alpercatas. Na hora da fuga, a cangaceira Enedina vinha atrás dela. Em determinado momento, Cila sentiu um impacto nas costas e virou-se pra ver o que era. Deparou-se com Enedina caída no chão: levara um tiro na nuca e os pedaços de massa encefálica, meninges e sangue foram às costas de Cila. Segundo relatou em entrevista ao autor destas linhas, demorou muito tempo para tirar as manchas de sangue e cérebro que ficaram no seu vestido.

O tiroteio foi intenso e durou uns 20 a 25 minutos. Um dos soldados, Honorato, deu um tiro na cabeça de Lampião, quando este estava caído no chão, o que suscitou grande reprimenda de João Bezerra, que disse: “-Não atirem na cabeça! Não é pra esbagaçar! É pra cortar e levar!”.

Segundo depoimentos de cangaceiros e volantes, Maria Bonita teria implorado para não morrer. No entanto, foi degolada pelo soldado Santo (na verdade, Sandes), ao que parece ainda com vida.

O tenente João Bezerra foi baleado na perna durante o combate, provavelmente por Zé Sereno. Um soldado, Adrião Pedro de Souza foi morto durante o combate, provavelmente por Balão.

Corisco ouviu o tiroteio, mas como estava no outro lado do rio, não teve como dar uma retaguarda a Lampião. Só depois ficou sabendo o resultado do confronto.

João Bezerra ordenou que os onze cangaceiros mortos fossem decapitados e as cabeças levadas para Piranhas, onde foram fotografadas na escadaria da prefeitura. Depois de condicionadas em latas de querosene, foram levadas para Maceió, não sem antes serem exibidas em várias cidades do interior de Alagoas aos circunstantes, o que muito prejudicou a conservação das mesmas.

Em Maceió, as de Lampião e Maria foram examinadas pelo médico legista da Polícia Militar de Alagoas, Dr. José Lages Filho, que emitiu laudo de necropsia das peças. Posteriormente, foram mandadas para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, onde ficaram expostas até 1969. Neste ano, foram sepultadas em urnas, após pedido da família.

Aí está, em algumas pinceladas, o combate do Angico, o tiro de misericórdia no Cangaço, que ainda estrebucharia até 1940, com a morte de Corisco. Os grandes vitoriosos deste episódio foram João Bezerra e Francisco Ferreira de Melo, que conseguiram seu intento, apesar dos muitos empecilhos que se apresentaram (a recusa inicial de Pedro em ajudar, o cerco que não estava fechado, a travessia do rio…). As luzes de Bezerra e Ferreira de Melo ofuscaram o brilho de Lampião, que não conseguiu cumprir a promessa que fizera a Dona Delfina. A dona da fazenda Pedra D’Água teve de arrumar outros padrinhos para festa em que aguardava Lampião e seu bando, com muito arroz doce e canjica.

* Leandro Cardoso Fernandes é médico, escritor e consultor da Sertão Games para o Cangaço Wargame. Apaixonado pelo tema desde os 12 anos de idade, coleciona peças e fotos originais. Também realizou várias entrevistas e conversas informais com cangaceiros

Referências:

  1. Araújo. A.A.C. “Assim Morreu Lampião”. Traco Editora. São Paulo. 1971.
  2. Depoimentos de Zé Sereno e Balão a Antonio Amaury C. de Araújo. São Paulo. 1970.
  3. Depoimento de Cila a Leandro Cardoso Fernandes. São Paulo. 2003.
  4. Depoinento de Leônidas Fernandes (filho de Dona Delfina) a Leandro Cardoso Fernandes. São Paulo. 2003.
  5. Candeeiro. Vídeo de Aderbal Nogueira. 2008.

A Guerra do Cangaço

Por Leandro Cardoso Fernandes*

O Cangaço, fenômeno social que se estendeu além das fronteiras nordestinas, encontrou seu apogeu nos anos 20, com seu maior expoente: Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.

Na sua essência, reflete a reação do sertanejo ao processo de colonização pelo europeu, uma vez que o clavinote genocida e o peso da bota do português despertaram os “irredentos”, no dizer do pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, que munidos do rancor e da vontade de continuar vivendo “sem lei nem rei”, pegaram em armas e foram viver “debaixo do cangaço”.

O cangaço sempre viveu de forma endêmica no sertão brasileiro. De quando em vez, explodia em surtos epidêmicos, que rapidamente suscitava retaliações violentas por parte dos poderes constituídos, principalmente na segunda e terceira décadas do século XX. Nestes surtos epidêmicos podemos inserir as guerrilhas indígenas contra os bandeirantes; os quilombolas contra capitães do mato e bandeirantes; as lutas pela independência do Brasil (brasileiros x portugueses); e, finalmente, o Cangaço, com suas variadas roupagens, Brasil afora. A própria formação cultural do sertanejo e seu código de honra permitiam a prática de revides contra agressões sofridas, o que era moralmente aceitável no meio em que viviam, mas reprovável aos olhos da dita civilização litorânea.

Empurrado pela repressão, o cangaço encontra na caatinga o ambiente ideal para prosperar. A vegetação seca e espinhenta minava o vigor dos perseguidores, e foi importante aliado dos vários bandos de cangaceiros. As regiões de caatinga braba da Floresta do Navio, em Pernambuco e o famoso Raso da Catarina, no sertão baiano eram refúgio certo para Lampião, quando necessitava esquivar-se dos perseguidores e também impor as agruras do terreno às Forças Volantes.

O modus operandi de cangaceiros e volantes era basicamente o mesmo: a imposição do terror. A tática de guerrilha era largamente usada pelos contendentes, sendo que os cangaceiros abusavam do recuo e, na maioria das vezes, escolhiam o terreno das refregas. Muitas vezes, as vítimas (de cangaceiros e volantes) eram os pequenos proprietários de terras que, sem ter a proteção dos latifundiários, se viam entre “a cruz e a espada”, ou seja, forçados a “acoitar” Lampião e, como consequência, sofrer retaliações pelas mãos furiosas das tropas volantes.

A indumentária do cangaceiro encontra poucos rivais em beleza e acabamento. A riqueza do traje é evidente, o que joga por terra a tese de alguns autores que afirmavam que os cangaceiros se vestiam de maneira a se camuflar ou ocultar na caatinga. Ora, basta olhar para os enormes chapéus de couro, enfeitados com signos de Salomão, palmas e estrelas, com os barbicachos cheios de moedas de ouro; os bornais, cruzados ao peito, com estrelas estilizadas coloridas; a jabiraca (lenço de seda) em cores berrantes ao redor do pescoço; além do cheiro de suor misturado ao perfume, para disfarçar os vários dias sem banho. Tudo isso no leva a concluir que ao vestir-se desta forma, o cangaceiro intencionava impor superioridade aos interlocutores. Inclusive, este é um dos argumentos levantados contra o rótulo gratuito de bandido comum, pois este tenderia a ocultar-se, enquanto que o cangaceiro, protegido por seu escudo ético, quer mostrar-se com toda a sobranceria.

Tanto cangaceiro como volantes nos deram exemplos de grandes guerreiros. Dentre os capitães de cangaço, destacamos Jesuíno Brilhante, Antonio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião, Corisco, Luís Pedro, Moreno, Zé Baiano, Zé Sereno. Entre os citados, é indiscutível a superioridade de Lampião, cuja astúcia ludibriou as volantes de 7 estados nordestinos, durante mais de 20 anos. É um dos raros brasileiros a ter duas biografias publicadas em vida: a primeira em 1926, por Érico de Almeida e a segunda por Ranulpho Prata, em 1933. E hoje é uma das personagens mais biografadas da nossa História.

Do lado das volantes, temos o exemplo de coragem de grandes oficiais, dentre os quais se destacam Teóphanes Ferraz Torres, Manoel Neto, Zé Rufino, João Bezerra, Odilon Flor, Euclides Flor, Arlindo Rocha, Higino Belarmino (Nego Higino), Cabo Besouro, dentre outros. É importante destacar a participação do Coronel Teóphanes Ferraz Torres, que prendeu, em 1914, o cangaceiro Antonio Silvino, e foi responsável pela expulsão de Lampião do Estado de Pernambuco para a Bahia, em 1928.

As batalhas do cangaço foram impressionantes. Episódios heroicos como o Combate da Serra da Forquilha, em 1922, onde Sinhô Pereira (com Lampião no bando) e mais 10 cangaceiros conseguiram furar o cerco feito por 120 soldados, sem mortos ou feridos; ou mesmo o combate da Serra Grande, em 1926, onde Lampião e 70 cangaceiros, entrincheirados no alto da serra, enfrentaram 300 soldados da união de 3 volantes. Deste renhido combate saíram 10 soldados mortos e 14 feridos. Nenhum morto ou ferido por parte dos cangaceiros.

Abro aqui um parêntesis para falar do Nazarenos. A pequena Vila de Nazaré, hoje Carqueja, próxima a Serra Talhada, forneceu os mais ferozes perseguidores de Lampião.  Dentre eles, o Tenente Manoel de Souza Neto, que protagonizou vários episódios de bravura contra Lampião e outros chefes de grupo. Tal era sua tenacidade no encalço do Rei do Cangaço, que este lhe deu um apelido: Mané Fumaça; e Maria Bonita, por sua vez, o apelidou de Cachorro Azedo. Manoel Neto saiu, em mais de uma ocasião, baleado, à frente da tropa para perseguir e atacar Lampião.

Outro comandante de volante que merece ser citado é José Osório de Faria, o Zé de Rufina (ou Zé Rufino), pernambucano que soma para si as mortes de mais de uma dezena de cangaceiros, dentre eles os famosos Mariano e Corisco, o Diabo Louro, em 1940.

Entretanto, o combate mais famoso da epopeia do Cangaço foi o Combate de Angico, em julho de 1938, onde o Tenente João Bezerra e o Aspirante Francisco Ferreira de Melo deram cabo de Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros, que foram pegos de surpresa naquela madrugada, que seria eternizada com o tiro de misericórdia do Cangaço, que ainda estrebucharia até maio de 1940, com a morte de Corisco, o vingador de Lampião.

* Leandro Cardoso Fernandes é médico, escritor e consultor da Sertão Games para o Cangaço Wargame. Apaixonado pelo tema desde os 12 anos de idade, coleciona peças e fotos originais. Também realizou várias entrevistas e conversas informais com cangaceiros.

Referências

Mello, Frederico P. Guerreiros do Sol. São Paulo: A Girafa. 2.ed., 2004.

FERNANDES, L. C. “Caatinga, Cangaço e o Raso da Catarina”. In Almeida-Cortez et al. “Caatinga”. Ed. Harbra. São Paulo, 2007.

Por que Cangaço?

O cangaço foi um movimento ocorrido no nordeste do Brasil  entre o século XIX e o início do século XX . As disputas violentas e a falta de perspectivas na melhoria da condição de vida levaram ao surgimento de grupos armados, criando assim a figura dos famosos cangaceiros.

A palavra cangaço vem de canga, peça de madeira simples ou dupla que se coloca na parte posterior do pescoço de bois nos carros de boi, cangaceiro foi o nome dado a todos os criminosos, uma vez que os prisioneiros eram obrigados a carregar seus pertences pendurados no pescoço.

Dentro deste contexto, de lutas e estratégias, a Sertão Games está desenvolvendo  um wargame  para resgatar as emoções das disputas no sertão, proporcionando a você e seus amigos a sensação de ser um herói do cangaço em pleno século XXI.

No game Cangaço você lidera um bando de cangaceiros em batalhas épicas nas fazendas, cidades e brejos da caatinga.  Prepare-se para desbravar a aridez do sertão, racionar o uso da água e lutar contra a temida volante.

Cangaço é um jogo de batalhas estratégicas em turnos. Você cria seu próprio personagem e joga com seus amigos do Facebook. Ganhe batalhas para crescer sua reputação e se tornar o rei do sertão.

Prototipação

Veja o que a Sertão Games está preparando para você e seus amigos:

Volantes (grupos de soldados/policiais/mercenários que caçavam os bandos de cangaceiros.)

Elementos do Jogo

Os primeiros testes do jogo

Tabuleiro

Visão noturna do Cangaço